Quando confiar em informação médica obtida no Google?


Ferramentas de busca online como Google e Yahoo! são bastante utilizadas por médicos para fins profissionais, mostrou uma pesquisa publicada pela Wolters Kluwer Health.

A pesquisa realizada entre mais de 300 membros da American Medical Association mostrou que 78% recorrem pelo menos ocasionalmente a sites como Google para diagnosticar e tratar seus pacientes. Destes, 46% disseram utilizar com frequência estas ferramentas de busca para trabalho.

Quando confiar em informações sobre medicina obtidas no Google

Pesquisa mostra que 78% dos médicos utiliza ferramentas de busca como o Google para diagnosticar e tratar pacientes

Apesar de óbvio, é importante deixar claro aqui que as informações obtidas a partir de uma busca no Google não são do Google, mas sim, links para websites que o Google julga terem conteúdos relevantes à busca realizada. Como websites pagos (por exemplo, UpToDate) não podem ser rastreados pelos bots do Google, os links que geralmente retornam na pesquisa são de websites de acesso livre.

O acesso a fontes de acesso livre de informação pode gerar desconforto entre alguns, porém não é surpreendente quando se observa o aumento crescente de websites que oferecem informações revisadas por pares e com linguagem técnica dirigidas especificamente a médicos, como o Medscape e o WebMD. No Brasil, o Precepta é um exemplo de website de acesso livre que oferece informações médicas confiáveis e baseadas em evidências, e é hoje um dos websites dirigidos a médicos com o maior número de visitantes no país (ver estatística).

Apesar da facilidade de se obter informações aparentemente úteis no Google, é fundamental saber separar o joio do trigo. Uma busca com palavras-chave corretas pode retornar informações valiosas. Nisto, o profissional de saúde tem vantagem sobre o paciente, pois tem a possibilidade de utilizar termos técnicos na pesquisa. Uma busca, por exemplo, com a palavra-chave “cefaleia” tem chances maiores de retornar informações técnicas do que com a palavra-chave “dor de cabeça”. Nesta mesma linha, a procura combinada por “cefaleia”e “edema de papila” é quase garantia de retornar artigos dirigidos especificamente a médicos e profissionais da saúde, pois edema de papila não é um termo amplamente conhecido entre leigos, portanto pouco explorado por websites dirigidos ao público em geral.

Os resultados de uma busca com termos técnicos retorna frequentemente artigos científicos e revisões publicadas em revistas médicas. As chances de obtenção de bons artigos aumentam ainda mais quando se utiliza o Google Acadêmico para a busca. Em uma conversa informal entre residentes de medicina de um hospital americano, vários confessaram utilizar o Google Acadêmico (Scholar) diariamente para pesquisas.

 

Quando confiar em informações sobre medicina obtidas no Google

O Google Acadêmico pode ser um excelente recurso para pesquisa por profissionais médicos e da área de saúde

 

Nem sempre os links retornados pelo Google são úteis e aqui mais uma vez a experiência do profissional auxiliará na identificação das informações que devem ser valorizadas. Nós separamos abaixo algumas dicas para que que isto possa ser feito com eficiência:

 

 Dicas para identificar informações médicas confiáveis na internet 

  1. As informações são baseadas em evidências?
    • Confira as referências: autores que baseiam seus artigos em evidências científicas tendem a citar as fontes das quais as informações foram retiradas.
  2. Os textos são revisados por pares?
    • Informações revisadas por pares são disponíveis principalmente em revistas científicas, porém alguns websites oferecem revisão pareada do material publicado, como as revisões publicadas no Precepta;
  3. Os textos são bem redigidos?
    • O cuidado na escrita tende a refletir o cuidado também na pesquisa para redação do artigo. Por outro lado, textos mal escritos são geralmente amadores ou traduzidos de originais em outro idioma (prefira o original).
  4. O website recebe um número grande de visitantes?
    • Há diversas ferramentas gratuitas que indicam o tráfego de um website, das quais o Alexa Traffic Rank é o mais utilizado. Outras maneiras de identificar é observar as discussões que os assuntos publicados geram no próprio website ou nas ferramentas sociais.

 

Em 2006, o British Medical Journal publicou um estudo mostrando que o Google pode ser uma ferramenta útil para médicos, principalmente quando se trata de doenças difíceis de diagnosticar como a síndrome de Cushing e a doença de Creutzfeldt-Jakob. Os médicos que participaram da pesquisa utilizaram 3 a 5 palavras-chave para procurar informações a respeito de 26 doenças de difícil diagnóstico publicadas como casos clínicos no New England Journal of Medicine. Os resultados mostraram que o Google diagnosticou corretamente 58% das doenças, mas os médicos enfatizaram que foi preciso amplo conhecimento inicial para identificar o que foi procurado.

A pesquisa realizada pela Wolters Kluwer Health, citada no início deste artigo, mostrou ainda que nove entre 10 médicos julgam que a capacidade de prestar atendimento melhorou com a possibilidade de utilizar recursos online (gratuitos e pagos) para pesquisa, enquanto que 63% já mudou alguma vez um diagnóstico inicial com base nos resultados obtidos.

 

Referências

Wolters Kluwer Health 2011 Point-of-Care Survey. [Citado em novembro de 2013.] Link para o artigo. 

Hangwi Tang H, Ng JHK. Googling for a diagnosis—use of Google as a diagnostic aid: internet based study. BMJ. 2006 Dec 2;333(7579):1143-5. Link para o artigo. 

dez 29, 2014 by

Comments Closed